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"Livros, discos, vídeos à mancheia! E deixe que digam, que pensem, que falem..."

segunda-feira, março 13, 2006

"Quem tem viola não carece de transporte"*

Venho reouvindo meus discos (físicos e virtuais) de música regional. Em especial aqueles gravados por Xangai, o Eugênio Avelino. Voz rascante, agreste, violentamente delicada em sua poesia bruta.

Xangai não compõe muito, mas cria ao recriar as obras de outrem. Quando canta as puluxias, loas e obras maravilhosas de Elomar, não consigo ver casamento melhor. Aliás, Elomar eu só citei até então. Ele merece 127 posts só pra ele; por isso paro de falar nele aqui.

Parêntese para desejos secretos e obscuros: quisera eu ouvir Xangai a cantar Alagados, do paraibano Herbert Vianna, dos Paralamas. Quisera eu ouvir Xangai cantando com o poeta do absurdo Falcão (ele mesmo, incauto leitor).

Eu falava da seca mastigativa e da fome castigativa presentes na voz e na escolha de repertório de Xangai: quase só ele tem aquele poder de deus da caatinga que invade a cidade pra roubar nossa alma caipira-do mato-norte-nordestino.

Vivemos na boléia de um caminhão, comendo pó de estrada e bebendo da abrideira pra passar o tempo e poder esperar a lua chegar para ouvir a viola no escurão da noite. Não existe, por um átimo de segundo, a dura realidade do sertão, da seca, do chão rachado e com sede. Ou talvez isso tudo exista e nos salta aos olhos em forma de poesia.

Xangai não é um filósofo chinês, uma cidade japonesa, um samurai errante. O Sr. Eugênio Avelino é parte dos muitos Brasis que eu conheço e muito daquilo que ainda desconheço. Os escondidos e mistérios que são mágicos... Nonada. Travessia.

E pensar que as gravações citadas acima são reais mesmo. E eu tenho aqui comigo. Quem dá mais? Quem dá mais?

Ósculos e amplexos para quem for de.
Alex Manzi.

*verso inicial da belíssima canção de Almir Sater e Paulo Simões, "Viola e Vinho Velho".

13 Comments:

Blogger Carmen said...

Depois que você colocou aquela mensagem lá no seu MSN ("Josefina, sai cá fora e vem ver"), eu ouvi Arrumação 963 vezes. Decorei. Esse Elomar me faz chorar demais.

Quando ele fala da onça que comeu o bode, da luta injusta das presas e unhas da onça contra a zagaia única do bode Seda Branca (o chifre), ou quando ele fala de que tudo o que o sertanejo juntou na vida foi roubado pelos ciganos... ai, Alex... não agüento... é uma beleza triste demais para o meu coração. Elomar é um gênio.

Já comecei uma novena para Santo Expedito, das causas urgentes, para você começar sua série de posts sobre ele. Vai ser deleite puro para nós.

Salve Elomar!

11:59 AM  
Blogger Meu Neguinho said...

Alex, eu tenho uma gravação do Xangai cantando Alagados... É de um cd com o Xangai e o quinteto da Paraiba, cantando apenas músicas de paraibanos famosos. Tudo acústico, um luxo só. Cê qué?

12:41 PM  
Blogger Alex Manzi said...

Carmen,

é justamente essa tristeza bela que eu sinto quando ouço o Xangai cantando e recriando o Elomar e outros. O sertão tá dentro de nós, né?

Ivan

Eu tenho essa gravação. Até leiloei-a no final do post. Além da gravação com o Falcão, que eu também tenho. Cê qué?

Ósculos Sertânicos.

1:01 PM  
Blogger Marco Aurélio said...

Alequis

Pispiano tudo du cumêço
eu vô mostrá como faiz o pachola
qui inforca u pescoço da viola
rivira toda moda pelo avêsso
i sem arrepará si é noite ou dia
vai longe cantá o bem da furria
sem um tustão na cuia u cantadô
canta inté morrê o bem do amô.

Inté

5:23 PM  
Blogger Alex Manzi said...

Coréio

Vamo cantá no canturi primêro
das coisa lá das nossa mudernage.

Um fraterno abraço, malungo blogueiro.

"mas foi tanto dos vaquêro que reinô no meu sertão, que cantâno o dia intêro num menajo todos não..."

5:34 PM  
Blogger Arthur Petrillo said...

Ola caríssimo porém acessível amigo! Agora tenho meu blog. Não sei usar ainda, mas aos poucos a coisa anda! Muito bom o texto. O fato de não conhecer as referências talvez não me permitiu maior entendimento. Mas não me esqueci do presente, hein?

Aquele abraço!

3:20 PM  
Blogger Alex Manzi said...

Meu bom amigo, Arthurzinho do Boréu! Que bom que tenho mais companhia ainda nesse mundo blogal! O seu presente não será esquecido, meu velho. Aguarde e verá.

Um imenso abraço, meu querido amigo.

11:12 PM  
Anonymous Alex, o Jordane said...

Você sempre no acerto... Tava aqui ouvindo, de 1977, o fantástico João Bosco (Tiro de Misericórdia), mas não ressiti ao ler o post..
Viva o sertão, viva Xangai, viva Elomar, viva os Brasis...
Ósculos e amplexos...

2:45 PM  
Blogger Alex Manzi said...

Alex, eu diria que o sertão é como o rock and roll. Não é moda, não é ritmo, não é música; é um estilo de vida e um estado de espírito. Xangai é rock and roll puro e Bob Dylan é o sertão com a zagaia elétrica.

Saúde, irmão! Volte sempre mesmo.

1:04 PM  
Blogger Arthur Petrillo said...

Obrigado pelo comentário! Filho único!!!

9:21 AM  
Blogger Alex Manzi said...

De nada, filho único!!!!

1:20 PM  
Blogger alanvalente said...

Estava eu procurando alguma coisa de variação lingüística para levar para as minhas alunas hoje. Lembrei de Arrumação, da ponta d'unha, do sêda branca com uma zagaia só... Faz algum tempo que eu não tocava isso no violão... O sertão baixou aqui que saiu pó. Dessa feita, veio a música-saga de Elomar: um nome de ligação, num é?!É isso. Achei! Achei seu blog também. Que bom! Um grande abraço urbano.

11:12 AM  
Blogger Alex Manzi said...

Salve, Alan, Malungo Valente!

Que bom que gostou. Elomar é um ninja do sertão. Poeta, erudito, músico e criador de bodes. Não é uma maravilha?

Maravilha ter visita por aqui também. Volte sempre que sirvo um café ou uma abridêra.

Abraço apertado.

p.s.: não consegui acessar seu blog. Pena.

7:34 PM  

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