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domingo, março 23, 2008

Ele está lá

"There are many here among us who feel that life is but a joke (...)"
All Along the Watchtower, de Dylan, mas já gravada por Neil Young, U2, Jimi Hendrix, Dave Matthews Band e, talvez, mais gente por aí.
Robert Allen Zimmerman parece ser o homem do ano, do milênio. Bob Dylan, pra quem não conhece. Dylan esteve aqui no Brasil com preços lá em cima e já está nos cinemas em Não Estou Lá, de Todd Haynes. Ou melhor, Dylan não está nos cinemas. O que eu vi foi uma cinebiografia das mais originais. Bob Dylan é tão multifacetado e tão complexo que mereceu o que vi na telona.
Para começar, devo dizer que não sou crítico de cinema e vou falar aqui de minhas impressões acerca do filme. Só isso, sem qualquer pretensão maior. O nome Bob Dylan não é citado no filme. Seis atores vivem as diferentes fases da vida dele. Mas, vivem como se fossem outro. Inclusive com nomes diferentes. O que achei interessante no filme é a mistura de verdade e ficção. Elas parecem estar tão entrelaçadas no filme que nos enganam do outro lado da tela. Como uma mentira repetida que se transforma em realidade, pela simples construção do ambiente, dos personagens, do tom.
Estão lá todas as fases importantes do bardo americano. Suas angústias, suas trapaças com a vida real, sua ironia fina e venenosa com quem não entende o que ele faz. Dylan pode ser visto como um andarilho interessado na tradição, como um cantor de sucesso imenso, como um cantor simples de folk, como um astro elétrico do rock, como um desafiador de seu próprio público (que o chama de Judas ao trocar a sonoridade folk - violão, gaitinha, voz - pela guitarra elétrica e o auxílio de uma banda "barulhenta"), como um fora-da-lei em sua própria terra e, principalmente, como um ator de si mesmo; alguém que falseia a sua própria trajetória e se angustia em estar perdido no seu próprio furacão.
Todo o filme é pautado por canções clássicas e outras nem tanto assim, mas todas muito boas. Sou suspeito pois adoro o trabalho de Dylan, apesar de não ser um profundo conhecedor de todo o repertório dele. Gosto de manter como enigmas pra mim os artistas que admiro.
Ao final de tudo, fica também a vontade de ter uma cinebiografia mais linear e menos falseada. Seria interessante ter ao alcance das mãos as duas leituras. Mas penso mesmo que Dylan, pela magnitude de sua obra e pela complexidade de sua personalidade artística, não pede nada além de mistério e fragmentação em algo que tente retratá-lo. Muitos biógrafos já afirmaram que Bob já mentiu e inventou e trapaceou em fatos de sua própria biografia. O homem é o senhor dos sortilégios; um feiticeiro sem aprendiz.
Dylan lá, vivendo o que finge e nós aqui, fingindo que vivemos.
Ósculos e amplexos para quem for de.
Alex Manzi.
p.s.: agradecimento especial à Claudinha, dona do genial e feliz título deste post.
p.s2.: quem ficar até o final dos créditos pode conferir uma belíssima interpretação de Knockin' on Heaven's Door por Anthony and The Johnsons, banda mais que bacana que muita gente devia conhecer.

4 Comments:

Blogger Marcus said...

Meu amigo Manzi,
Aqui estou eu de novo...depois da TIM, vem a bonanza, ou bonança, seja lá o que for, vem a calmaria...vem Dylan.
Pois é, como estávamos conversando outro dia, comentei a respeito da Biografia deste grande músico e poeta, feita por Martin Scorcese, que retrata a vida de Bob entre 1961 e 1966. Eu ainda não vi esse filme que está no cinema, mas o de Scorcese, mesmo cobrindo somente cinco anos da vida artística do mestre já nos dá uma idéia de suas origens, suas influências, e aquela afirmativa negada por ele de que todos pensam que o DYLAN do sobrenome artístico dele seja por causa do escritor Dylan Thomas. E ele se nega a ser a influência de uma ou mais gerações, como inegavelmente ele foi e é.
Assim como ele ensinou os fab four a fumar o cigarro apregoado por Marley, ele também fez e faz música de qualidade, mesmo porque seria impossível fazer uma cinebiografia de uma pessoa com praticamente cinquenta anos de carreira. Seriam pelo menos cinco horas de filme, e ainda ficariam faltando um trilhão de coisas a se falar.
Pois é, falei demais, mas sabe como é, só ouvindo Lay Lady Lay, The Hard Rain is Gonna Fall, Hurricane para sentir o que sinto quando as ouço. Como uma pedra que rola...Like a complete unknown!
Ele está lá, e você está ai!

Abraço forte do Aranha!

Marcus

1:19 AM  
Blogger Eclipse said...

Este comentário foi removido pelo autor.

1:23 AM  
Blogger Marcus said...

Manzi,
Esqueci-me de mencionar o nome do filme do Martin Scorcese...No Direction Home...recomendo...
Abraço,
Marcus

1:25 AM  
Blogger Alex Manzi said...

Marcus, você está aí. Que bom.

Certa vez eu estava com o No Direction Home nas mãos mas, não sei porque, não deu pra ver. Agora, novamente lembrado pela sua dica, pegá-lo-ei na locadora.

Fiquei curioso, pra ver se o bardo americano falseia alguma coisa no filme do Scorsese... Veremos.

E, mais uma vez, obrigado pela visita em meu buteco. Estamos aí pra isso. Papear e papear...

Abraço Aranhístico Apertado Procê.

11:00 PM  

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